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22/03/2017 Medicina

Medicina: do sonho ao pesadelo

O vestibular é apenas uma entrada, em seu significado estrito.

Medicina: do sonho ao pesadelo

PASSEI EM MEDICINA! Muitas lágrimas de emoção e um orgulho grandioso dos nossos pais. Poxa, meu filho passou no vestibular de Medicina! Uma profissão nobre, gratificante, que salva vidas…  proporciona retorno financeiro… tem status…

Muitos ficam na labuta do vestibular durante anos. Uns passam de primeira, outros fazem um ano de cursinho, dois… quatro… nove. Enfim, a luta é grande para ter o ingresso num curso médico. E essa luta não é nem uma amostra da que o estudante de Medicina terá que dispender para graduar-se médico, e formar-se especialista. O vestibular é apenas uma entrada, em seu significado estrito. Além dele, temos provas modulares, extremamente difíceis. Há, ainda, a ANASEM que tem um futuro incerto quanto o impedimento da diplomação. As provas de Residência Médica, concorridíssimas, difíceis e confusas.

Após toda essa jornada, ingressamos na rotina hospitalar dentro da própria residência. Realizamos nosso sonho. No entanto, o trabalho agora é maior, bem maior… São 60 horas semanais exaustivamente trabalhadas recebendo uma irrisória “bolsa” de R$ 3.330,43. Após concluído o período de residência, há a prova de títulos para que você consiga ser de fato especialista. Provas essas com um nível de dificuldade descomunal, nas quais muitos reprovam. Contabilizou os anos? Contabilizou os exame? Contabilizou as reprovações? E as aprovações? Gastei quanto tempo para atingir meu sonho, tanto para o ingresso no curso médico, quanto para a residência?

Sim, a jornada do Médico é muito sofrida e extenuante. São anos e anos de estudo sem fim. Centenas de milhares de reais gastos na preparação. Se você passou numa Universidade pública, ótimo, vá em frente. Agora, se você terá que pagar por uma educação privada, o caminho será completamente diferente, e difícil.

Nos últimos quatro anos, foram abertos 128 novos cursos de Medicina, dos quais, 109 são privados. Cursos de qualidade duvidosa, em locais inapropriados. Hoje em dia, há curso de medicina onde sequer existem médicos especialistas. Quem ensinará medicina a esses futuros médicos? Será que vão ensinar de fato Medicina, ou uma medicina de segunda classe? São frases cativantes de puro marketing que contagiam os vestibulandos “Venha fazer medicina na ‘Famerd’ (nome fictício), temos condições especiais, temos fies”. Mensalidades de valor médio de 7 mil reais. E esse tal de FIES? Compensa? Existe ainda?

O FIES teve suas regras alteradas, com extrema diminuição na quantidade de vagas ofertadas. Mas será que vale a pena? Se você fizer fies, certamente sairá com uma dívida próxima de 600 mil reais da faculdade. E para pagar isso… Tem a residência, e na residência ganho muito pouco. O que eu faço, Meu Deus? Aí sua história complica, pois certamente terá que escolher entre trabalhar e juntar dinheiro e pagar a dívida ou se tornar especialista. Mas será que quando eu formar a medicina estará tão valorizada a ponto de eu ganhar bem para pagar minha dívida? Bem provável que não…

Há quem diga que entrar em medicina é uma escolha, eu digo que ser médico é sonhar com o sonho do outro. Medicina é uma grande renúncia. Frequentemente, é abster-se da convivência com a família e amigos. É trabalhar intensivamente em prol do outro. É perder um paciente para a morte depois de tanta luta. Se você deseja ser médico pela medicina, vá em frente. Agora, se você deseja ser médico apenas pelo pseudo-status, pela “remuneração”, poderá encontrar muitos empecilhos em seu caminho, e se decepcionar. Se você quer mesmo ser Médico, corra atrás de seu sonho e jamais, digo, jamais desista, mas pense bem sobre suas escolhas.

Fonte: Portal MedicinaE.com.br

Assuntos relacionados: Medicina, Médico, FIES