Blog


12/09/2016 Medicina

Você estudou o quê? Formações incomuns para estudantes de medicina

Com a tecnologia desempenhando um papel mais importante do que nunca, a saúde pública e a medicina comunitária estão sendo mais reconhecidas como ferramentas essenciais para a manutenção da saúde.

Você estudou o quê? Formações incomuns para estudantes de medicina

A nova Dell Medical School na University of Texas em Austin não partiu para recrutar estudantes com formações pouco convencionais. No entanto, foi exatamente isso o que aconteceu: dos 50 alunos na aula inaugural da faculdade, cujo curso está marcado para iniciar no segundo semestre de 2016, 21 têm formações pouco convencionais para estudantes de medicina: psicologia, filosofia e espanhol constam entre as formações representadas, assim como enfermagem e engenharia.

"Nós buscamos iniciativa, liderança, e experiência profissional na comunidade para melhorar os resultados de saúde nessas comunidades", disse ao Medscape Stephen Smith, vice-reitor de assuntos estudantis da Dell. A diversidade da formação foi um efeito colateral de encontrar pessoas que já eram líderes em suas comunidades, explicou. Por exemplo, alguns tinham trabalhado em comitês de elaboração de políticas.

Dell é uma dentre um número cada vez maior de faculdades de medicina experimentando novos modelos para a formação dos futuros médicos. Como resultado, estão atraindo estudantes com experiências e formações que vão além das previsíveis Biologia ou Química.

"Eles precisam pensar de forma diferente, abordar os problemas de forma diferente, ter um pensamento novo e original. Precisam ter um pensamento amplo e também grande profundidade em diversas áreas da ciência e da tecnologia", disse ao Medscape Katherine Banks coordenadora do curso de engenharia  da Texas A&M University, sobre os médicos que ela espera formar no currículo EnMed (engenharia e medicina) da faculdade. Neste programa, os engenheiros irão se tornar "engenheiros médicos", aptos a projetar dispositivos, aplicativos e robôs para cirurgias sem o entediante vai-e-vem entre o engenheiro e o médico. Este curso deverá iniciar no segundo semestre de 2017.

Iniciativas como a da Dell e a da EnMed estão tentando fazer mais do que preencher a necessidade de um maior número de médicos; estão trabalhando a partir da ideia de que a saúde do futuro deverá se basear em mais do que na capacitação médica tradicional. Com a tecnologia desempenhando um papel mais importante do que nunca, a saúde pública e a medicina comunitária estão sendo mais reconhecidas como ferramentas essenciais para a manutenção da saúde das pessoas.

Não são apenas as novas faculdades que estão tomando essas iniciativas. O programa do consórcio para a aceleração das mudanças na formação médica ( Accelerating Change in Medical Education Consortium ) da American Medical Association recebeu subsídios destinados às instituições que trazem novas abordagens para a educação. A Dell é uma delas, juntamente com 30 outras faculdades, incluindo grandes nomes como a Harvard e a University of California, em São Francisco.

As "áreas principais" do consórcio para a modificação do currículo médico são como um roteiro para transformar a medicina. Os alunos estão aprendendo a resolver problemas e a reavaliar constantemente o próprio conhecimento; compreendendo os fatores sociais e econômicos que modificam a saúde dos pacientes e o acesso aos serviços de saúde; e analisando dados sobre custos e resultados, para citar apenas alguns dos objetivos.

O reconhecimento da Dell nesse consórcio decorre de seu currículo centralizado nas lideranças. A faculdade objetiva tirar proveito da iniciativa dos seus alunos com o aprendizado baseado em casos clínicos e fazê-los trabalhar em pequenas equipes. Para escolher seus estudantes, a Dell elaborou uma prova na qual pequenos grupos teriam de resolver um problema em conjunto. Eles foram avaliados não apenas quanto ao resultado, mas também quanto ao modo de trabalhar com os outros e de resolver conflitos.

No terceiro ano, os estudantes da Dell terão a escolha de seguir um mestrado (em saúde pública, administração de empresas, engenharia biomédica ou psicologia educacional) ou realizar um projeto para melhorar a saúde na comunidade local. A faculdade irá auxiliar os estudantes na elaboração de projetos que atendam a alguma necessidade identificada. Então, após uma votação para decidir quais serão implementados, os estudantes irão trabalhar em equipes para implementar os projetos e avaliar os seus resultados.

O programa EnMed, da mesma forma, espera que os alunos comecem a trabalhar em projetos inovadores enquanto eles ainda estiverem na faculdade. "Imaginamos que cada um dos nossos alunos deve inventar algo antes de se formar", explica Katherine. Contrariamente aos programas tradicionais graduação/doutorado, que já existem para a engenharia, o programa EnMed integra a medicina e a engenharia no mesmo currículo. A faculdade quer criar um "espaço maker" onde os alunos possam trabalhar em suas invenções, bem como um escritório de comercialização de tecnologia para ajudar a trazer essas invenções à vida no mundo real.

Os administradores encaram esses novos programas como um acréscimo às opções dos alunos nas faculdades de medicina, e não como algo que torna outras abordagens obsoletas. "Os engenheiros já podem cursar atualmente a faculdade de medicina, e se quiserem uma faculdade de medicina tradicional, devem ingressar nela", diz Katherine.

Adam Eickmeyer, que recentemente terminou o curso de graduação da University of Michigan, está procurando faculdades de medicina que incorporem programas não-tradicionais e tem encontrado muitas opções. Ele elaborou o tema de sua própria monografia, intitulada "Determinantes e Desigualdades em Saúde", na qual mescla biologia com ciências humanas, culminando numa tese sobre as desigualdades na saúde para lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e transformistas.

Eickmeyer vê as faculdades de medicina se tornarem mais acolhedoras para os estudantes que queiram acrescentar as ciências humanas e sociais à sua busca de formação médica. Por exemplo, o exame de admissão para a faculdade de medicina agora inclui uma seção sobre ciências sociais e comportamentais. Ele explica: "Acho que isso mostra que a medicina está começando a perceber que os médicos não têm de ser apenas muito bons em ciência básica, mas também precisam estar capacitados a pensar sobre estas questões a partir de uma perspectiva social e humanitária".

Fonte: Medscape.com