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27/02/2013 Dicas

Cascata iatrogênica e polifarmácia no idoso

A chamada ?polifarmácia é frequentemente desproporcional aos seus problemas crônicos, e pode ocasionar importante deterioração da sua saúde.

Cascata iatrogênica e polifarmácia no idoso

Devido à elevada prevalência de doenças crônicas com o aumento da idade, os idosos são possivelmente o grupo etário que mais recebe medicamentos, chegando a constituir 50% dos “multiusuários”. A chamada “polifarmácia é frequentemente desproporcional aos seus problemas crônicos, e pode ocasionar importante deterioração da sua saúde. A averiguação clínica desta informação medicamentosa deve ser feita sistematicamente pelo profissional de saúde que atende o idoso.

De forma geral, a polifarmácia é caracterizada como a associação de múltiplos medicamentos em uma prescrição médica[1]. Neste sentido, esforços para aprimorar a seleção, prescrição, a dispensação e a utilização de fármacos devem constituir prioridade nos programas de atenção ao idoso. De todos os fatores de risco para reação adversa a medicamentos (RAM) em idosos, a polifarmácia (polimedicação) é o mais importante[2]. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, RAM é qualquer evento nocivo e não intencional que ocorre na vigência do uso de um medicamento utilizado com finalidade terapêutica e em doses normalmente recomendadas.

Uma pesquisa realizada com idosos internados em um hospital público da Grande São Paulo revelou que 61,8% deles apresentaram RAM e para 11,3% dos pacientes a reação foi a própria causa da internação, sendo que 24 deles tiveram RAM em mais de uma situação[3]. Em 32 pacientes (17,2%), a reação foi diagnosticada à internação, mas não constituiu a sua causa. Os medicamentos mais prevalentes envolvidos nas reações adversas foram o captopril, a furosemida e a hidrocortisona. Dentre os 10 medicamentos mais empregados, a furosemida esteve associada à maior prevalência de RAM (25,3%).

Há uma relação exponencial entre o número de medicamentos usados e a probabilidade de RAM, independente da classe terapêutica desses medicamentos. Há duas definições principais de polifarmácia, uma é quantitativa, determinada pelo uso concomitante de cinco ou mais medicamentos por um paciente e, considerando esta definição, a prevalência de polifarmácia é estimada em 20%-40% dos idosos[1]. A outra definição é qualitativa, e inclui o uso de mais medicamentos que os clinicamente necessários, enfatizando o critério de uso apropriado para o idoso. Além disso, o uso de uma medicação para tratar a RAM de outro fármaco também pode ser considerado polifarmácia, como por exemplo, o caso de um paciente usando antiinflamatório não-esteróide para osteoartrite, e que passa a usar antiácido para minimizar o risco de irritação gástrica. O antiácido, por sua vez, pode levar a constipação intestinal, e daí, o paciente passa a usar também um laxativo, e assim por diante. Exceção é o uso de suplementação de potássio concomitante à terapia diurética (efeito corretivo).

A RAM decorrente de interações de fármacos, que por sua vez, resulta da polifarmácia, pode mimetizar outras síndromes geriátricas, como confusão mental, quedas, incontinência urinária, problemas cognitivos, alterações do sono e sintomas depressivos. Por outro lado, a interpretação de uma RAM como se fosse a presença de outra afecção, pode levar à prescrição de um medicamento adicional, com seu próprio potencial para RAM, desencadeando o processo conhecido como “cascata de prescrições” ou “cascata iatrogênica”. Isso assume ainda maior importância quando se leva em conta que a maior parte das RAM no idoso é previsível e, portanto, prevenível.

É preciso modificar a postura dos profissionais de saúde diante da terapia medicamentosa em idosos, em especial a reação adversa medicamentosa, para que haja uma assistência livre de danos a esta clientela vulnerável. Entre as estratégias para minimizar a polifarmácia e a cascata de iatrogênica em idosos, estão as seguintes: obter história medicamentosa completa do paciente, atentando para automedicação e associações medicamentosas, prescrever apenas com indicação específica e cientificamente fundamentada e definindo claramente os objetivos da terapia proposta, além de simplificar o regime medicamentoso, quando possível. A integração entre prescritores e dispensadores também permite o alcance de resultados eficientes na prevenção de RAM, beneficiando significativamente a saúde do paciente idoso.

Referências
1- CORSONELLO, A. et al. Polypharmacy in elderly patients at discharge from theacute care hospital. Ther Clin Risk Manag, 3 (1): 197-203, 2007.
2- ROZENFELD, S. Prevalência, fatores associados e mau uso de medicamentos entreos idosos: uma revisão. Cad. Saúde Pública, 19 (3): 717-724, 2003.
3- PASSARELLI, M. C. G.; JACOB-FILHO, W.; FIGUERAS, A. Adverse drug reactionsin an elderly hospitalised population: inappropriate prescription is a leading cause.Drugs Aging, 22(9):767-77, 2005

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